Selo “Independent Craft” é reação à onda de aquisições de cervejarias artesanais por gigantes do setor

Na última semana de junho, a Brewers Association (BA), entidade sem fins lucrativos que é mantida por cerca de 3.800 produtores independentes de cerveja dos Estados Unidos, lançou um selo que reconhece e comprova uma cerveja como genuinamente artesanal independente. O selo ‘Independent Craft’ (em português, ‘Artesanal Independente’) visa, principalmente, comprovar a autonomia administrativa de uma microempresa produtora da bebida. Para estampá-lo em seus rótulos, as cervejarias só podem ser controladas em, no máximo, 25% por um investidor que não seja uma cervejaria artesanal.

Capacidade de produção, qualidade de insumos e contribuição efetiva das pequenas e médias fábricas para a economia local  são outros critérios avaliados pela BA para reconhecer e certificar uma cerveja como artesanal independente.

O anúncio de lançamento do selo colocou ainda mais lenha na fogueira sobre a discussão da utilização do termo “artesanal” pelas cervejarias controladas por grandes multinacionais do setor. O debate, agora, também passa a considerar a independência de um produtor de cervejas, além de qualidade e inovação, características das artesanais.

Mercado em expansão

Os Estados Unidos são o segundo maior mercado de cerveja do mundo em produção, atrás apenas da China, e já desenvolveram critérios objetivos e claros para diferenciar uma cerveja artesanal de uma industrial.

O Brasil é o terceiro maior mercado mundial de cerveja, com produção de quase 14 bilhões de litros por ano. Apesar da proximidade da liderança global em tamanho, o setor nacional ainda corre atrás dos líderes em termos de desenvolvimento e maturidade do mercado consumidor, principalmente se compararmos com os Estados Unidos.

Segundo levantamento mais recente da BA, o total de cervejarias na terra do Tio Sam é de 5.301. De toda a cerveja consumida nos EUA, 12,3% são de produção de cervejarias definidas como artesanais, responsáveis por 21,9% do volume de vendas total (em dólares) da bebida por lá.

Já por aqui, os dados não são tão precisos porque sequer temos uma entidade semelhante à BA. Mas estima-se que o mercado artesanal brasileiro ainda não tenha passado de 1% do total de produção. Segundo a Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), foram abertas 148 cervejarias no País em 2016, um crescimento expressivo de 39,6% no ano. No total, já são 522 cervejarias brasileiras.

O consumo médio de cervejas no Brasil é de cerca de 68 litros por habitante/ano, bem a frente dos nossos vizinhos da América Latina. Como referência, o consumo do Chile é de 49 litros, da Argentina, 47, e do Uruguai, apenas 30 litros. Claro que se compararmos com a República Tcheca, com 143 litros, ou Alemanha, com 106 litros por habitante/ano, ainda há um grande espaço para o crescimento no Brasil.

Apropriação industrial

Os números de crescimento e, principalmente, o potencial do mercado de cervejas artesanais despertam o interesse das gigantes do setor. Chegamos, então, na fase de que temos de um lado os pequenos empreendedores cervejeiros, que se sentem protagonistas da chamada “revolução das cervejas artesanais” no Brasil, ou “craft beer revolution” no mundo. Do outro, as grandes indústrias multinacionais, representadas por aqui pela Ambev, Heineken e Grupo Petrópolis.

A AB-InBev, controladora da Ambev, após adquirir ou se fundir com outras gigantes do setor – como a americana Anheuser-Busch, a belga Interbrew e, mais recentemente, a sul-africana SABMiller – passou a reproduzir seu programa de aquisições às cervejarias artesanais.

Os movimentos recentes de aquisição da InBev incluem Goose Island e Elysian, nos Estados Unidos; a belga Boostels, companhia que estava há sete gerações nas mão da família fundadora, dona de rótulos icônicos como Tripel Karmeliet, Kwak e Deus; e, no Brasil, as cervejarias Colorado e Wäls, premiadas internacionalmente.

A InBev criou, em 2014, o departamento batizado The High End (em português, algo como “Alta Qualidade”), que já engloba mais de dez cervejarias compradas pela companhia no país.

A mais recente integrante da turma da InBev é a Wicked Weed, elogiada cervejaria da Carolina do Norte, que se distingue pelas receitas ácidas e envelhecidas em barris. Após a aquisição, a Wicked Weed viu muitas cervejarias artesanais independentes darem as costas ao seu tradicional festival anual.

Outra fonte de rumores foi a compra pela InBev de uma participação do RateBeer, maior site colaborativo do mundo de avaliação de rótulos. “Uma das principais críticas foi o tempo em que a negociação foi mantida em sigilo, de outubro de 2016 a junho de 2017. Neste período, a Wäls, parte do portfólio da AB-InBev, foi eleita a melhor cervejaria brasileira pelo RateBeer”, destaca reportagem de O Globo, assinada por Eduardo Zobaran.

Artesanais independentes

Dentro deste movimento agressivo de aquisições pelos gigantes da indústria cervejeira, a criação do “selo artesanal” consiste em uma reação dos produtores independentes. Com tantas cervejas artesanais, é preciso esclarecer ao consumidor quais são de pequenos produtores e quais produzem sob o guarda-chuva de gigantes globais.

A exemplo dos selos que distinguem produtos orgânicos de industrializados, o selo artesanal da BA irá facilitar a vida dos consumidores que procuram ter informações detalhadas da origem daquilo que consomem.

Pesquisa do site BrewBound, do instituto de pesquisa Nielsen, revela que o selo ‘Independent Craft’ é, de fato, de interesse do público. O estudo revelou que o termo “independente” é importante para 81% dos consumidores de cervejas especiais nos Estados Unidos.

Por aqui, mantemos a expectativa de chegar o dia em que o Brasil terá a organização e a união do mercado americano de “craft beers”, além da produção consistente de informações e dados relevantes por parte dos produtores artesanais de cerveja.

Foto/ Arte: Brewers Association

Referências:

https://www.craftbeer.com/breweries/independent-craft-brewer-seal

https://www.thrillist.com/news/nation/independent-craft-beer-seal

http://blogs.oglobo.globo.com/aqui-se-bebe/post/independencia-ou-arte-epica-batalha-do-discurso-cervejeiro-nos-eua.html?loginPiano=true

http://blogs.oglobo.globo.com/aqui-se-bebe/post/investimento-da-ab-inbev-no-site-ratebeer-gera-polemica.html

http://blogs.oglobo.globo.com/aqui-se-bebe/post/artigo-o-crescimento-de-396-no-numero-de-cervejarias-em-2016-e-espetacular.html

https://www.brewersassociation.org/news/show-them-your-independence/

4 comentários em “Selo “Independent Craft” é reação à onda de aquisições de cervejarias artesanais por gigantes do setor

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