Beba local, compre global: veja o mapa de cervejarias artesanais americanas controladas por gigantes do setor

Tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, é cada vez maior a possibilidade de uma cerveja produzida localmente ser de uma empresa pertencente a uma gigantesca corporação multinacional de bebidas.

Para entender essa tendência internacional, que é sintomática também no mercado brasileiro, é preciso analisar a mudança de cenário no mercado norte-americano. Reportagem assinada por John Kell, publicada na Fortune em 1º de julho deste ano, trouxe um guia esclarecedor das cervejarias locais adquiridas por multinacionais (veja os mapas abaixo).

Com a diminuição de vendas da Budweiser e da Miller, as produtoras gigantes do setor, conhecidas pela alcunha de ‘Big Beverage’, ou ‘Big Beer’, assinaram pelo menos 15 acordos para comprar fabricantes de cerveja artesanal nos últimos anos nos Estados Unidos.

A Anheuser-Busch InBev, braço internacional da AmBev (resultado da fusão entre Brahma e Antarctica em 1999 e que, hoje, produz cerca de 100 rótulos e detém 70% do mercado brasileiro de cerveja), lidera esse movimento de aquisições de marcas artesanais. A líder mundial do mercado de cerveja acumula aquisição de 10 pequenas cervejarias nos últimos anos nos Estados Unidos. A aquisição mais recente foi a da Wicked Weed, da Carolina do Norte, em maio de 2017.

“O movimento artesanal foi a melhor coisa que aconteceu com a cerveja”, disse Felipe Szpigel, da AB InBev, que atua como presidente do portfólio de rótulos High End (em português, algo como “Alta Qualidade”).

Para aquisições das cervejarias artesanais, a AB InBev concentra-se em dois ingredientes-chave: buscar fundadores de artesanais que possuem algum vínculo com as empresas Big Beer, e/ou encontrar uma mescla de diferentes estilos de rótulos ‘ale’ (cerveja de alta fermentação), para que a multinacional não necessite fazer grandes investimentos no desenvolvimento de IPAs, Sours ou Saisons, por exemplo.

O carro-chefe da Wicked Weed, por exemplo, é uma West Coast IPA (American India Pale Ale mais encorpada e alcoólica, típica do movimento artesanal da Costa Oeste dos Estados Unidos) chamada Pernicious.

As aquisições de artesanais criam condições para uma expansão de mercado mais abrangente de cervejarias originalmente regionais. A Goose Island e a Blue Moon, por exemplo, tornaram-se marcas nacionais nos Estados Unidos e passaram a ser importadas para outros países (inclusive o Brasil) após serem adquiridas por InBev e SAB Miller, respectivamente. Elysian e Ballast Point, adquiridas por InBev e Constellation (detentora de marcas como Corona e Modelo) mais recentemente, caminham para a mesma tendência.

Vale lembrar que AB InBev anunciou a compra da SAB Miller, por 69,78 bilhões de libras (US$ 105,5 bilhões), em 11 de novembro de 2015, em uma transação que criou uma multinacional gigante do setor cervejeiro com cerca de 30% do mercado global. No entanto, para que o negócio fosse aprovado pelo órgão regulatório nos Estados Unidos, a InBev teve de vender alguns rótulos da Miller para a Coors, que comercializa as marcas Miller Lite, Miller High Life e Blue Moon. No Brasil, as marcas da MillerCoors (ou Molson Coors) são produzidas e comercializadas pelo Grupo Petrópolis, que tem a Itaipava como carro-chefe de vendas de seu portfólio.

Nos mapas abaixo, é possível identificar quais são e onde estão as cervejarias artesanais adquiridas por multinacionais:

artesanaisEUA_InBev

artesanaisEUA_MolsonCoors

artesanaisEUA_Heineken

artesanaisEUA_Constellation

artesanaisEUA_Independent

Obs. Os mapas não consideram a aquisição da Anchor Brewing, de San Francisco, pela japonesa Sapporo por US$ 85 milhões, em agosto de 2017. Para ler mais sobre o assunto, clique aqui.

Segundo a reportagem da Fortune, tanto a AB InBev quanto a MillerCoors alegam dar autonomia aos fundadores das artesanais adquiridas para que estejam no centro das decisões de marketing e inovação. “Eles fizeram a cerveja, eles vieram com as marcas, nosso trabalho é apoiá-los e oferecer a cerveja em mais lugares do que poderiam conseguir por conta própria”, diz Scott Whitley, diretor do portfólio de artesanais da MillerCoors.

Independent Craft X Big Beer

“Há confusão e, infelizmente, falta de transparência nos rótulos da marcas artesanais adquiridas por empresas ‘Big Beer’”, diz Julia Herz, diretora da Brewers Association (BA), entidade sem fins lucrativos que criou recentemente um selo que reconhece e comprova uma cerveja como genuinamente artesanal independente (leia mais sobre o selo Independent Craft aqui).

Bob Pease, presidente e CEO da BA, diz que os entusiastas da cerveja artesanal têm o direito de saber o que e quem está por trás de marcas artesanais que passaram a ocupar uma parcela maior nas prateleiras de mercados dos Estados Unidos e do mundo. “Os amantes da cerveja estão interessados ​​em transparência quando se trata de propriedade da cervejaria”, diz Pease.

Os fundadores de artesanais adquiridas por gigantes do setor, por outro lado, rechaçam a luta sobre o que é ou não uma artesanal independente, principalmente porque eles querem manter o marketing de suas cervejas dessa maneira.

“Vocês estão literalmente em luta”, diz o fundador Wicked Weed, Walt Dickinson, em resposta ao pedido da BA para a rotulagem sobre o controle da InBev. Ele diz que os fabricantes de cerveja precisam se unir e parar de perder mercado para outras bebidas, como vinho e licores, em vez de discutir sobre a rotulagem. “Afinal de contas, todos nós estamos fazendo cerveja”, alega.

Foto em destaque: Getty Images

Referências:

Is That Craft Beer You’re Drinking Really Craft? A Handy Guide: http://fortune.com/2017/07/01/craft-beer-budweiser-miller/

Como fica a SAB Miller depois da fusão com a AB InBev: http://exame.abril.com.br/negocios/como-fica-a-sabmiller-depois-da-fusao-com-a-ab-inbev/

AB Inbev fecha compra da SABMiller por US$ 105,5 bilhões: http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,ab-inbev-anuncia-acordo-de-compra-da-sabmiller–por-us-105-5-bilhoes,1794413

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