Heineken adquire 40% de participação da maior cervejaria da China e agita mercado global

A Heineken anunciou a compra da participação de 40% da China Resources Beer (CR Beer), maior cervejaria da China, por um valor de US$ 3,1 bilhões. A CR Beer continua proprietária dos 60% restantes da empresa e, ainda, comprou 5,2 milhões de ações da Heineken por US$ 538 milhões. As transações combinadas resultaram em um investimento líquido de US$ 2,2 bilhões pela Heineken, conforme revelaram as duas companhias em um comunicado conjunto na última sexta-feira, 3 de agosto.

Além de sinalizar a chegada potencialmente promissora do grupo chinês no cenário internacional, esse movimento não deixa dúvidas sobre o empenho da Heineken, atual segunda maior do mundo com cerca de 10% do mercado global, em concentrar esforços rumo à liderança. Mas o caminho ainda é longo para os holandeses até chegar à AB Inbev, maior do mundo com participação de 26% no mercado global de cerveja, de acordo com dados consolidados de 2017 da empresa de pesquisa Euromonitor International.

O gigantismo do mercado chinês é a aposta da Heineken para aumentar receitas. Com um volume total de consumo de 45,5 bilhões de litros da bebida em 2017, a China é o maior mercado de cerveja do mundo. O segundo lugar no ranking, os Estados Unidos, registraram 24 bilhões de litros de consumo total no ano passado, pouco mais da metade do volume chinês. O Brasil vem em terceiro, com 12,5 bilhões de litros, seguido de Alemanha (9 bilhões) e México (7,8 bi).

Além disso, a CR Beer é dona da marca de cerveja mais vendida do mundo, a Snow. Trata-se de uma American Standard Lager clara de sabor leve e refrescante. A Snow responde por cerca de 90% do volume total de vendas de cerveja da CR Beer e é quase que exclusivamente vendida na China. Agora, a gigante chinesa espera usar a rede global da Heineken para comercializá-la no exterior, principalmente sudeste da Ásia, Europa, Estados Unidos e Austrália.

snow beer
A Snow é a cerveja mais vendida do mundo, mas é difícil encontrá-la fora da China

A CR Beer também tem o objetivo entrar de vez no setor premium, dominado atualmente por ocidentais. “Esta (transação) ajudará a acelerar nossa estratégia para atingir a meta de assumir uma posição de liderança no mercado premium dentro de 5 a 10 anos”, disse Hou Xiaohai, presidente-executivo da CR Beer, em teleconferência com repórteres.

A CR Beer “não tem uma marca premium para o crescimento, e nós não temos o alcance de distribuição na China que eles definitivamente têm”, disse Jean-Francois van Boxmeer, diretor executivo da Heineken, em teleconferência.

De acordo com analistas da Degroof Petercam, em nota divulgada pela Reuters, “a compreensão do crescimento do mercado da marca Heineken deve melhorar nos próximos anos graças à forte posição da CR Beer”.

Unir para crescer

A Heineken detinha uma participação de 0,5% do mercado da China em volume em 2017, segundo a Euromonitor International, enquanto a AB Inbev tinha 16,1%. Já a CR Beer registrou cerca de 26,1% de participação no ano passado.

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As três maiores cervejarias chinesas – China Resources, Tsingtao e Beijing Yanjing – dominam cerca de 54% do mercado local

Para Jean-François van Boxmeer, a empresa teria dificuldade em crescer organicamente em toda a China e o acordo foi a melhor oportunidade encontrada pela empresa. “(Isso) é algo que teria custado muito dinheiro e não temos tempo para isso”, afirmou.

Distribuição e planos de expansão

A gigante holandesa vende suas principais marcas de cerveja – Heineken, Tiger e Sol – na China, além de marcas locais mais baratas: Anchor e Hainan Beer.

Hou Xiaohai, da CR Beer, disse que a empresa vai usar sua extensa rede de distribuição local para promover as marcas da Heineken. O executivo afirmou que avalia, ainda, introduzir no mercado chinês outras marcas de propriedade da cervejaria holandesa, embora isso ainda esteja em discussão.

A Heineken destacou que o acordo deve aumentar suas margens de lucro e disse que está à disposição para ajudar a CR Beer a monitorar a qualidade de produtos e unir esforços em marketing e precificação, caso sejam solicitados.

“Eles são ótimos profissionais, não queremos dar um segundo palpite sobre como estão conduzindo os negócios na China”, disse Boxmeer, acrescentando que cabe ao grupo chinês decidir sobre o futuro das marcas locais da empresa holandesa.

A transação está sob aprovação dos órgãos reguladores da China e deverá ser concluída até o fim deste ano.

China e Brasil: novos campos da batalha global

A AB Inbev herdou uma participação de 49% do produtor da cerveja Snow por meio da aquisição da SABMiller em 2016, mas teve que vendê-la para resolver questões antitruste. Agora, a Snow integra o portfólio da Heineken.

O acordo anunciado na última sexta-feira dá à Heineken uma forte parceira à medida que as empresas europeias avançam em uma batalha dispendiosa por participação em países com crescimento expressivo, ou promissor, no setor de cervejas, como o Brasil e a China. Essa internacionalização visa compensar a queda de vendas da bebida nos Estados Unidos e em outros mercados mais consolidados.

Em fevereiro de 2017, a Heineken assumiu o segundo lugar no Brasil ao comprar por R$ 2,2 bilhões (US$ 704 milhões) a Brasil Kirin. Parecia um bom negócio, já que a empresa japonesa havia pago o triplo do preço, cinco anos antes, pelas 12 fábricas da antiga Schincariol, que incluem as marcas artesanais Eisenbahn e Baden Baden.

Mas ao chegar em cerca de 20% de participação no mercado brasileiro, a empresa holandesa enfrentou problemas de distribuição e desafios na padronização de processos. Embora os obstáculos no Brasil parecem gradualmente estar sendo solucionados, a Heineken demonstra fazer sua expansão de forma mais cautelosa na China, outro país de dimensão continental.

“Em grande parte do mundo, notadamente os principais mercados da China e do Brasil, as pressões macroeconômicas, a crescente conscientização sobre a saúde e as tendências aspiracionais de consumo estão direcionando o foco para o segmento premium do espectro da cerveja”, avalia Angelica Salado, analista sênior da Euromonitor International.

“A cerveja de preço médio, a área de cerveja dominante, continua a perder participação para o crescente segmento de cerveja premium. Isso está sendo alimentado não apenas pelo crescente número de produtores artesanais, mas também pelo investimento de grandes empresas na diversificação de seus portfólios, aumentando as margens de lucro e tornando-se menos dependentes de marcas de massa”, conclui.

cerveja-heineken

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Foto de destaque: Associated Press

Referências:

https://www.reuters.com/article/us-heineken-nl-m-a-china-res-beer/heineken-toasts-3-1-billion-china-resources-beer-premium-tie-up-idUSKBN1KO00A

https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-08-02/heineken-partners-with-china-resources-in-3-billion-tie-up

https://asia.nikkei.com/Business/Business-Deals/Heineken-and-CR-Beer-aim-to-quench-China-s-premium-beer-thirst

https://blog.euromonitor.com/2017/08/quick-facts-global-beer-market-2017.html

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